Peter Lynch e o Investidor Comum
Peter Lynch geriu durante treze anos o fundo mútuo mais bem sucedido à época, o Fidelity Magellan Fund. Este super investidor foi sempre um convicto proponente do amadorismo no investimento no mercado de ações. Logo no primeiro capítulo do livro “Beating the Street”, Lynch escreveu sobre como os fundos mútuos estavam a ser geridos pelos referidos “génios do investimento”, e que estavam a ter performances abaixo do esperado. Segundo ele, “o facto de que 75% desses fundos mútuos não tiveram um desempenho tão bom quanto os índices do mercado acionista provam que a genialidade não é infalível”.
O autor refere também em “One Up on Wall Street” que o sucesso alcançado por grupos de investidores amadores (aqueles que o fazem nos seus tempos livres, com a devida pesquisa e informação) evidencia que a simplicidade na análise beneficia o investimento.
A Experiência da St. Agnes

Em 1990, Joan Morrissey, CEO e professora na escola de St Agnes, em Arlington, EUA, decidiu fazer uma pequena experiência para provar que não era necessário ter um MBA para saber investir no mercado bolsista.
Propôs aos seus alunos do 7º ano que se dividissem em quatorze grupos, cada um com quatro elementos, e cada grupo teria de criar uma carteira de investimentos. Venceria o grupo que conseguisse fazer mais dinheiro.
Os alunos adoraram o exercício. Lançando-se a ele com entusiasmo e isso é notório pelos nomes que escolheram para os seus grupos: “Dos trapos à riqueza”, “Os sábios de Wall Street”, “As donas de Wall Street”, “A máquina de dinheiro”, “O nosso nome é ações”, ou a preferida de Lynch, “A turma do Lynch”.
Para fazerem as suas escolhas aprenderam a ler o “Investor´s Business Daily”, onde consultavam, entre outras informações, os earnings e as forças de cada empresa.
A cada grupo foi dado um valor inicial hipotético de $250.000 para investir na sua carteira. Tinham que começar por fazer uma de potenciais empresas, e depois pesquisar cada uma antes de a aprovar.
Segundo Morrissey, foi-lhes reforçado que um bom portfólio deve ter um mínimo de dez companhias, com uma ou duas a providenciarem um bom dividendo. Cada grupo devia também indicar uma das suas empresas como elemento do portfólio da turma.
Regra Número 1
A regra de ouro antes da escolha: cada grupo teria que explicar à turma exatamente o que faz a companhia que escolheram. “Se não conseguirem dizer à turma que serviços proporciona ou que produtos vende, não podem comprar ações dessa empresa” foi a condição sine qua non de Morrissey.
Os alunos começaram por fazer uma lista com as empresas que conheciam do seu dia a dia. Nomes como Disney, Walmart e Gap figuravam em todas as listas todas elas companhias que fazem produtos ou prestam serviços fáceis de nomear e compreender, e presentes no quotidiano destes estudantes.
Empresas com objetivos mais difíceis de descortinar, como de amortização de swaps e obrigações de hipotecas colaterais, não apareceram em nenhuma das listas.
E verifica-se, no dia a dia do investidor, que empresas com marcas ou serviços que até uma criança de treze anos compreende e reconhece tendem, a longo prazo, a ter melhor performance que companhias dependentes de conceitos financeiros demasiado complexos.

Tabela 1: Carteira do grupo vencedor de 1990 (Andrew Castiglioni, Greg Bialach, Paul Knisell e Matt Keating)
Regra Número 2
A familiaridade com a companhia escolhida costuma traduzir-se em bons resultados.
Algo que se verificou foi que estes miúdos investiram, maioritariamente, em marcas que conheciam e adoravam. A lógica de muitos era que se eles gostavam e compravam certas marcas, então outros miúdos deviam gostar e comprar essa marca também. Um exemplo era a Gap (NYSE:GPS), que apreciou +320% nos primeiros dois anos desta experiência.
Outro exemplo vencedor foi a Pentech International (NYSE:PNTK), adquirida em 2005 pela Semcon Ab. Os alunos do grupo que escolheu esta ação enviaram uma das canetas que adoravam desta marca com uma esferográfica de um lado e um sublinhador do outro a Lynch, juntamente com a sua recomendação. Lynch nunca chegou a comprar, arrependendo-se disso quando a ação quase duplicou de valor.
A turma também investiu na Topps (NASDAQ:TOPPS), que fazia os cromos de basebol que todos colecionavam, com ganhos de +55,7%, na PepsiCo (NYSE:PEP) com +63,8%, e no Walmart (NYSE:WMT) que subiu +164,7%.
Num exemplo em que não seguiram a regra 2 e usaram o que tinham lido no “Investor’s Daily”, investiram na Savannah Foods, privatizada em 2004, e com uma queda de +38,5%.
Regra número 3
É preciso fazer o trabalho de casa. A alocação de capital tem que ser substanciada, e há que recolher informações acerca das potenciais escolhas.
No caso destes estudantes, depois de fazer uma lista das empresas de que gostavam, a opção de comprar devia ser sustentada pelos dados adquiridos, recorrendo, para tal, a uma fonte de informação fidedigna.
Na altura não gozavam de algumas das vantagens atuais, como o acesso constante às mínimas variações do mercado em tempo real. Em 1990 o topo da tecnologia de informação financeira era o Quotron, com o Bloomberg Terminal a ganhar rapidamente posição. Isto tornava o “Investor’s Daily” leitura obrigatória primeiro para selecionar o que comprar, e depois para acompanhar o desempenho dos constituintes da carteira. Os Resultados
Depois de dois anos com estas posições, com empresas como a Walmart, Mobil, IBM, Gap e Nike, entre outras, o lucro hipotético do portfólio dos alunos de St Agnes foi de 70%, para um ganho de 26% para o mesmo período do S&P 500.
Mais relevante ainda, na altura a performance destes alunos superou 99% dos fundos mútuos existentes.
Quando Peter Lynch ouviu falar desta experiência ficou tão impressionado que convidou a turma e a professora para um almoço no restaurante executivo da Fidelity. Para o repasto destes alunos foi servida pizza a primeira vez que o menu foi apresentado na sala.
Quando estes resultados foram difundidos, muitos detratores deste sucesso faziam referência a que era dinheiro hipotético e que qualquer um podia ter escolhido aquelas ações. A isto Peter Lynch respondeu: “Os profissionais deviam estar aliviados por St Agnes não estar a usar dinheiro verdadeiro, senão, baseado na sua performance, milhares de milhões de dólares estariam a ser retirados dos fundos mútuos disponíveis e a serem dados a crianças. E se qualquer um podia escolher estas, então porque é que ninguém o fez?"

Tabela 2: Carteira de investimentos da turma
Comprar o que Conhecemos
Warren Buffett costuma dizer aos seus investidores que “devem ser capazes de escrever numa folha de papel amarelo “vou comprar General Motors a $22, e a GM tem 566 milhões de ações por um total de valor de mercado de $13 milhares de milhões, e a GM vale muito mais que isso porque…”, e se não conseguem acabar esta frase, então não comprem a ação. Mas isto requer um certo desapego emocional do comportamento de outras pessoas.”
Adquirir ações do que conhecemos é um conceito verdadeiramente importante. Não seremos nunca capazes de avaliar o real potencial de crescimento de uma empresa se não conseguimos sequer perceber o que esta faz.
É um dos três pilares de investimento ensinados tanto por Benjamin Graham como por Warren Buffett, a que chamam o ciclo da competência.
A Cassete (Era a Época da VHS) dos Alunos para o Lynch
A relação de Lynch com a escola, com Joan Morrissey e com estes alunos levou à formação de dois grupos, um de alunos, os Whiz Kids, e um de professores, os Wall Street Wonders, com Lynch como membro honorário. Ainda hoje a escola festeja o Peter Lynch Day.
Os alunos que participaram na experiência acabariam por gravar uma cassete para enviar a Lynch em que resumiam os pontos essenciais do que aprenderam. A estes pontos ele apelidaria de mantra que devemos recitar todos os dias no duche para evitar erros básicos quando investirmos.
A Mantra do Investimento para Recitar no Duche
- Uma companhia que aumenta os seus dividendos anualmente costuma ser uma boa empresa.
- Investir em ações não é um jogo de azar, mas, para isso, é preciso estudar as empresas em que investimos e manter atual o conhecimento sobre elas.
- A decisão de investir numa empresa deve ser tomada porque esta tem características que apontam para o seu crescimento e sucesso, e não pelo preço da ação ou da excitação dos mercados com ela.
- Investir na bolsa costuma gerar excelentes retornos, mas é muito fácil perder o dinheiro investido.
- Perder dinheiro na bolsa pode acontecer muito rapidamente, mas ganhar dinheiro na bolsa requer tempo.
- Diversificar é importante, mas deve ser feito com conhecimento e para diluir um risco que se espera nulo, e não para atenuar o risco de decisões mal fundamentadas.
- Mesmo uma excelente empresa, cheia de indicadores positivos, pode levar a perdas no portfólio — é preciso não entrar em pânico, perceber porque é que isso aconteceu, e reagir de acordo com esses dados, e não emocionalmente pelo medo gerado pela queda.
- Só porque uma ação caiu não quer dizer que não possa cair ainda mais.
- Apego emocional a uma empresa não se deve refletir no momento de comprar ou manutenção das suas ações.
- Comprar ações de empresas de serviços é bom porque dão dividendos altos, mas regra geral faz-se mais dinheiro em ações de crescimento.
- A longo prazo, há vantagem em comprar ações de empresas pequenas com potencial de grande crescimento.
Deixamos a mantra para a nossa comunidade repetir também enquanto toma o seu banho. Sem dúvida que ajudará a todos a serem ainda melhores investidores.
Nota:
- Este artigo representa a visão pessoal do seu autor e não deve ser considerado recomendação de investimento.
- Por motivos de transparência informamos que vários elementos da equipa MoneyFlix possuem ativos abordados neste artigo nas suas carteiras de investimento.
- Investir é arriscado. Invista com responsabilidade.
